A imagem do líder ideal foi construída sobre uma premissa bastante clara: transmitir segurança, demonstrar controle e nunca deixar dúvidas sobre suas próprias capacidades. Mostrar incerteza ou admitir erros era visto como sinal de fraqueza, algo a ser evitado a qualquer custo, especialmente em público.
Recentemente, lendo uma edição da The Shift sobre autenticidade nas relações profissionais e o esgotamento das narrativas excessivamente polidas no ambiente corporativo, uma reflexão ficou particularmente evidente: por que líderes que demonstram vulnerabilidade parecem gerar mais conexão do que aqueles que sustentam uma imagem permanente de perfeição? A partir dessa provocação, fui buscar estudos e pesquisas que ajudassem a entender melhor o tema. E a ciência comportamental mostra que a resposta é menos intuitiva do que parece.
Essa visão começou a ser questionada de forma mais sistemática em 2012, quando a pesquisadora Brené Brown publicou The Power of Vulnerability e trouxe para o centro do debate uma ideia que parecia contraintuitiva: a vulnerabilidade não enfraquece a liderança, ela a sustenta. Quase quinze anos depois, a ciência comportamental continua acumulando evidências nessa direção.
A professora Leslie K. John, da Harvard Business School, é uma das pesquisadoras que têm aprofundado esse campo. Em conversa recente no podcast de Mel Robbins, ela descreveu um experimento simples, mas revelador: gestores foram instruídos a se apresentar a novos colaboradores, alguns sem mencionar nenhuma fraqueza, outros incluindo um ou dois pontos de desenvolvimento pessoal. A preferência dos funcionários foi consistente pelo segundo grupo.
O mecanismo por trás disso é mais simples do que parece. Quando alguém compartilha algo sensível, como uma dificuldade, uma dúvida ou um erro passado, está enviando um sinal implícito de confiança para quem ouve. E confiança, como regra geral, tende a ser recíproca. “Revelar algo sensível a alguém é uma forma de demonstrar confiança”, explica Leslie John. “Você está dizendo, implicitamente: eu confio que você não vai me humilhar. E quando as pessoas sentem que alguém confia nelas, elas confiam de volta.”
A pesquisa vai além do ambiente de trabalho. Segundo a professora, guardar segredos ou suprimir sentimentos tem consequências mensuráveis na saúde: quem carrega segredos tende a ruminar mais, o que reduz o foco mental e, em testes controlados, até o desempenho cognitivo. Os indicadores de saúde física também são piores. O custo do silêncio, portanto, não é apenas relacional, mas também fisiológico.
Para líderes e para as organizações que eles representam, esse conjunto de evidências tem uma implicação direta: a reputação mais sólida não é construída sobre a imagem de quem nunca erra, mas sobre a de quem tem clareza sobre seus limites e coragem para nomeá-los. Uma liderança que comunica com autenticidade, que fala abertamente sobre aprendizados, sobre processos em construção e sobre os bastidores das decisões, cria um vínculo com sua audiência que nenhuma narrativa de perfeição consegue replicar.
Isso se traduz de forma bastante concreta na maneira como uma marca se posiciona. Empresas que permitem que seus líderes apareçam como pessoas reais, com opiniões, histórico e trajetória, tendem a gerar mais identificação e mais fidelidade do que aquelas que apostam apenas na comunicação institucional. O porta-voz que admite que ainda está aprendendo algo é, paradoxalmente, mais confiável do que o que aparenta já saber tudo.
Isso não significa transformar a liderança em um exercício permanente de exposição pessoal. A vulnerabilidade eficaz não está no excesso de compartilhamento, mas na capacidade de comunicar humanidade sem abandonar clareza, consistência e responsabilidade.
A conclusão de Leslie John resume bem esse ponto: “A vida de quem não compartilha é uma vida de oportunidades perdidas, de amizades que nunca florescem, de colegas que nunca chegam a confiar em você de verdade.” No contexto da comunicação corporativa, trocar oportunidades perdidas por conexões genuínas começa com uma escolha simples e corajosa: aparecer de verdade.
Na Sing, acompanhamos de perto como a construção de reputação deixou de depender apenas de mensagens bem controladas e passou a exigir algo mais difícil de replicar: autenticidade. Em um ambiente onde confiança se tornou um dos ativos mais valiosos para marcas e lideranças, comunicar com humanidade já não é apenas uma questão de tom, mas uma estratégia de conexão.
Isadora Fernandes
11/05/2026
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