Quando o descarte inadequado de eletroeletrônicos e eletrodomésticos contribui com as enchentes nas cidades

*Por Fernando Rodrigues

 

Os episódios de alagamentos urbanos têm se tornado cada vez mais frequentes e severos nas cidades brasileiras. Chuvas intensas, sistemas de drenagem antigos ou sobrecarregados e a ocupação desordenada do solo costumam ser apontados como as principais causas desse problema. No entanto, há um fator menos visível e ainda pouco debatido, que contribui diretamente para o agravamento desse cenário: o descarte inadequado de resíduos, mais especificamente os eletroeletrônicos e eletrodomésticos.

Refrigeradores abandonados em calçadas, lavadoras descartadas em terrenos baldios, televisores e outros eletroeletrônicos jogados em córregos ou misturados ao lixo comum representam um sério problema no gerenciamento dos resíduos. Esses equipamentos, quando descartados de forma irregular, acabam obstruindo bueiros, bocas de lobo, galerias pluviais e canais de drenagem, dificultando o escoamento da água da chuva e ampliando significativamente o risco de alagamentos.

Ao longo da minha atuação na área ambiental, tenho acompanhado de perto como o descarte incorreto desses itens impacta diretamente a infraestrutura urbana. Diferentemente de resíduos orgânicos ou recicláveis comuns, eletroeletrônicos e eletrodomésticos por vezes possuem grande volume, estrutura rígida e baixa capacidade de compactação. Quando chegam aos sistemas de drenagem, criam verdadeiras barreiras físicas que impedem o fluxo da água, favorecendo o acúmulo de detritos e aumentando a ocorrência de enchentes, especialmente nesta época do ano.

Além do impacto direto na drenagem urbana, os riscos ambientais associados a esses resíduos durante alagamentos são significativos. Muitos eletroeletrônicos contêm substâncias perigosas, como chumbo, mercúrio e cádmio, que podem ser liberadas quando os equipamentos entram em contato com a água. Em situações de enchentes, esses poluentes se espalham com mais facilidade, contaminando o solo, os rios e lençóis freáticos, ampliando os riscos ambientais e à saúde pública.

Outro ponto crítico é que, após os alagamentos, esses equipamentos costumam ser arrastados para áreas ainda mais sensíveis, como margens de rios, áreas verdes, encostas e regiões periféricas. Isso dificulta a coleta posterior, aumenta os custos para o poder público e sobrecarrega ainda mais os serviços de limpeza urbana. Ou seja, o descarte incorreto de um único equipamento pode desencadear uma cadeia de impactos ambientais, sociais e econômicos.

Diante desse cenário, a logística reversa é um instrumento poderoso para enfrentar o problema. Prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010), a logística reversa é caracterizada por um conjunto de medidas destinadas a viabilizar a coleta e a restituição dos eletroeletrônicos e eletrodomésticos ao setor empresarial. Assim, ao chegarem ao fim da vida útil, esses itens passam a ter um destino ambientalmente adequado, evitando que acabem em locais impróprios e o impacto na infraestrutura urbana.

Quando o consumidor descarta corretamente seus equipamentos em pontos de recebimento autorizados, esses resíduos são encaminhados para reciclagem ou para tratamento ambientalmente adequado. Além de reduzir a pressão sobre aterros sanitários, essa prática evita que materiais volumosos e potencialmente perigosos cheguem aos sistemas de drenagem. Trata-se de uma ação simples, mas com impacto direto na prevenção de alagamentos e na proteção ambiental.

É importante destacar, ainda, que a solução não depende apenas de grandes obras de infraestrutura. A mudança de comportamento da sociedade tem um papel fundamental. Informar-se sobre onde descartar corretamente, planejar a substituição de equipamentos de forma consciente e combater a prática de abandonar resíduos em vias públicas são atitudes que fazem diferença no dia a dia das metrópoles.

Os alagamentos urbanos são um problema complexo, exigindo ações integradas e contínuas. Incluir a gestão adequada dos resíduos eletroeletrônicos e eletrodomésticos nesse debate é importante para avançarmos em soluções mais eficazes e sustentáveis. Cuidar do destino desses equipamentos é, também, cuidar da cidade, do meio ambiente e da qualidade de vida de todos nós.

*Fernando Rodrigues é Engenheiro Ambiental e Gerente de Relações Institucionais da ABREE – Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos.

Sobre a ABREE: 

Fundada em 2011, a ABREE – Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos – é uma entidade gestora sem fins lucrativos e pioneira na implementação do sistema coletivo de logística reversa de eletroeletrônicos e eletrodomésticos no Brasil. A associação define, organiza e gerencia a operação do sistema, promovendo ganhos de escala, eficiência operacional e conformidade com a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Em âmbito nacional, a ABREE mantém uma ampla rede de pontos de recebimento, com mais de 7 mil locais distribuídos em pelo menos 1,5 mil municípios brasileiros. Atualmente, conta com 60 associados, que representam 206 marcas, sendo responsável pela contratação e auditoria dos serviços prestados por empresas especializadas, além de atuar na disseminação de informações e no engajamento dos elos da cadeia para viabilizar a logística reversa no país. 

Para mais informações, acesse: www.abree.org.br 

 

Sing Comunicação – Assessoria de imprensa da ABREE no Brasil.

Contato para imprensa: abree@singcomunica.com.br

23/02/2026


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