A transformação digital não falha por falta de tecnologia, mas por excesso de expectativas

*Por Everton Fernandes

Por muitos anos, o discurso sobre transformação digital foi construído em torno da ideia de que novas tecnologias seriam, por si só, capazes de transformar organizações. Inteligência artificial, computação em nuvem, automação e análise de dados passaram a ser apresentadas, dentro dessa premissa, como catalisadores inevitáveis de crescimento, eficiência e inovação. No entanto, ao observar de perto grandes programas de transformação digital em empresas de diferentes setores, torna‑se evidente que o principal fator de falha raramente é tecnológico. O problema central está no desalinhamento entre expectativas estratégicas e a realidade técnica da implementação.  

Diante disso, é importante lembrar que a infraestrutura tecnológica disponível hoje supera em muito a capacidade de absorção das organizações. O mercado de soluções digitais nunca foi tão maduro, acessível e diversificado. O gargalo, portanto, não é de oferta tecnológica. É de calibração entre o que a tecnologia pode entregar e o prazo em que a liderança espera que ela entregue. 

Os dados ajudam a materializar essa desconexão. Um estudo global da Gartner (2024) mostrou que aproximadamente 48% das iniciativas digitais atingem ou superam os resultados de negócio esperados. Outro relatório da Boston Consulting Group, do mesmo ano, indica que 74% das empresas admitem que estão lutando para gerar e escalar qualquer valor real com suas iniciativas de transformação e IA.  Esses números não refletem escassez de soluções. Ao contrário, reforçam que, em um ambiente onde a tecnologia é abundante e cada vez mais sofisticada, o fator limitante tem sido a expectativa inflada das lideranças, que frequentemente subestimam o tempo, a complexidade organizacional e a mudança cultural necessários para transformar capacidade tecnológica em valor concreto. 

Do ponto de vista técnico, transformação digital é essencialmente um processo de modernização arquitetural progressiva. Envolve reestruturação de sistemas legados, adoção de arquiteturas distribuídas, integração por APIs, reengenharia de dados e automação de fluxos operacionais. Cada um desses elementos possui limitações técnicas claras como dependências entre sistemas, dívida tecnológica acumulada, restrições de governança e complexidade de integração. 

Por isso, quando organizações tratam transformação digital como um projeto isolado ou, pior, como uma iniciativa de curto prazo, elas criam uma expectativa incompatível com a natureza incremental da engenharia de software em larga escala. A substituição de um ecossistema de sistemas legados por arquiteturas modernas não ocorre em meses. Frequentemente, exige ciclos de três a cinco anos, especialmente em empresas com operações complexas. 

Outro ponto bastante negligenciado é a maturidade de dados. Muitas estratégias digitais partem da premissa de que dados organizacionais estão estruturados, governados e disponíveis para uso analítico, sendo base para a transformação digital da empresa. Mas a vida real dessa organização pode ser um pouco diferente disso. 

Algo semelhante ocorre com inteligência artificial. A narrativa de mercado sugere que modelos avançados podem ser rapidamente aplicados a processos empresariais. Entretanto, a implementação de IA em ambientes corporativos depende de pipelines de dados confiáveis, infraestrutura de processamento adequada, mecanismos de monitoramento de modelos e integração com sistemas transacionais existentes. Sem esses elementos, a tecnologia permanece confinada a provas de conceito. 

Também existe outro fenômeno recorrente no mercado, que é a confusão entre adoção tecnológica e transformação digital. Implementar ferramentas modernas, como as plataformas SaaS, soluções de automação ou sistemas de analytics, não significa necessariamente transformar processos ou arquiteturas operacionais. Muitas organizações acabam criando uma camada adicional de tecnologia sobre estruturas antigas, aumentando a complexidade em vez de reduzi‑la. 

Essa abordagem gera o que alguns analistas chamam de “complexidade digital acumulada”. Sistemas modernos são adicionados ao ambiente corporativo sem a remoção equivalente de sistemas legados, resultando em arquiteturas híbridas cada vez mais difíceis de manter.  

Na prática, programas de transformação digital bem-sucedidos costumam seguir uma lógica menos ambiciosa e mais técnica. Em vez de prometer reinvenções completas do modelo de negócio em prazos curtos, concentram-se em três pilares estruturais: modernização arquitetural gradual, governança de dados e automação incremental de processos críticos. 

Observando esse cenário, é possível dizer que empresas que obtêm resultados consistentes geralmente tratam transformação digital como um programa contínuo de engenharia organizacional, e não como um projeto estratégico isolado. Isso significa aceitar que valor tecnológico surge de ciclos cumulativos de melhoria, e não de grandes saltos disruptivos. 

Em suma, a tecnologia disponível atualmente é extraordinariamente poderosa. Plataformas de nuvem permitem escalabilidade quase ilimitada, modelos de inteligência artificial atingem níveis inéditos de capacidade e ferramentas de automação conseguem redesenhar processos complexos. No entanto, essas capacidades técnicas não eliminam a necessidade de arquitetura bem planejada, integração cuidadosa e maturação gradual de sistemas. 

Portanto, o principal desafio da transformação digital não está em adquirir tecnologia, mas em alinhar expectativas executivas à realidade técnica da implementação. Quando expectativas são calibradas corretamente, reconhecendo complexidade, dependências e ciclos de evolução tecnológica,  as organizações deixam de buscar transformações instantâneas e passam a construir vantagem digital de forma sustentável. 

*Everton Fernandes é Senior Manager, Solutions Engineering da Cloudera no Brasil 

Sobre a Cloudera 

A Cloudera é a única empresa de plataforma de dados e IA em que grandes organizações confiam para levar a IA até seus dados, onde quer que eles estejam. Diferente de outros fornecedores, a Cloudera oferece uma experiência de nuvem consistente que integra nuvens públicas, data centers e a borda (edge), aproveitando uma base comprovada de código aberto. Como pioneira em big data, a Cloudera capacita as empresas a aplicarem IA e assumirem o controle de 100% de seus dados, em todas as formas, oferecendo segurança unificada, governança e insights preditivos em tempo real. As maiores organizações do mundo, em todos os setores, confiam na Cloudera para transformar a tomada de decisões, impulsionar os resultados financeiros, proteger contra ameaças e salvar vidas. 

 

Sing Comunicação – Assessoria de imprensa da Cloudera no Brasil.

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31/03/2026


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